Crise expôs divergências entre ministros, levou Fachin a assumir a relatoria do inquérito das fake news e abriu debate sobre regras para apurações envolvendo integrantes da Corte
O Supremo Tribunal Federal atravessa um dos momentos mais delicados de sua história recente. Nas últimas semanas, uma sequência de decisões, pedidos de investigação, troca de acusações e impasses processuais colocou a Corte no centro do debate político e jurídico nacional. O episódio envolve principalmente os ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça, além de investigações relacionadas ao Banco Master, ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro e ao funcionamento interno de apurações conduzidas no próprio tribunal.
A crise ganhou força no início de setembro, quando vieram a público informações de um relatório da Polícia Federal produzido no âmbito do caso Master. O documento tratava de supostos diálogos envolvendo Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, e uma pessoa apontada como sendo o ministro Alexandre de Moraes. O material foi encaminhado no contexto de uma investigação que estava sob relatoria do ministro André Mendonça. Segundo a Folha de S.Paulo, o relatório mencionava mensagens, contatos e encontros, mas seu conteúdo passou a ser questionado por diferentes partes quanto à validade, origem e uso processual.
A partir daí, o conflito ganhou dimensão institucional. Alexandre de Moraes pediu ao presidente do STF, ministro Edson Fachin, a abertura de investigação contra André Mendonça, alegando possíveis irregularidades na condução dos casos Master e INSS. Fachin, por sua vez, retirou o pedido do inquérito das fake news e o levou para outro procedimento, abrindo prazo para manifestação da Procuradoria-Geral da República e eventual defesa de Mendonça.
A situação se agravou quando Mendonça determinou o afastamento do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e do diretor de Inteligência da corporação, Leandro Almada. A decisão foi posteriormente suspensa por Flávio Dino, que reconduziu os dirigentes aos cargos. Diante da sobreposição de decisões, Fachin interveio, suspendeu os atos anteriores, manteve Andrei Rodrigues na direção da PF e assumiu a condução do inquérito das fake news, retirando Alexandre de Moraes da relatoria.
Na nota divulgada pelo STF em 9 de setembro, Fachin informou que revogou a designação de Moraes para conduzir o inquérito instaurado em 2019, preservando os atos praticados até aquela data. A medida passou a valer a partir de 9 de setembro de 2026 e foi apresentada como uma tentativa de reorganizar a tramitação interna e conter o acúmulo de conflitos processuais.
Um dos pontos centrais da crise é a definição sobre como o Supremo deve lidar com possíveis apurações envolvendo seus próprios ministros. O Plenário iniciou discussão sobre duas petições relacionadas ao caso Master: uma referente ao relatório da Polícia Federal sobre Moraes e outra envolvendo pedido de investigação contra Mendonça. O mérito, no entanto, não chegou a ser analisado. A discussão foi suspensa após pedido de vista do ministro Flávio Dino.
Com o pedido de vista, Dino tem prazo de até 90 dias para devolver o caso ao julgamento, segundo a Agência Brasil. Na sessão, os ministros divergiram sobre se os casos envolvendo Moraes e Mendonça deveriam ser julgados em conjunto ou separadamente. A indefinição manteve o impasse e prolongou a crise dentro da Corte.
A sessão também evidenciou divisões internas no tribunal. De acordo com a Folha, o placar parcial ficou em 4 a 3 contra a unificação dos casos. Fachin, Mendonça, Luiz Fux e Cármen Lúcia votaram contra a análise conjunta, enquanto Moraes, Cristiano Zanin e Gilmar Mendes defenderam a unificação. Dias Toffoli e Nunes Marques não votaram por alegações de suspeição e impedimento, respectivamente.
Outro desdobramento ocorreu quando André Mendonça respondeu à representação feita por Alexandre de Moraes. Segundo o UOL, Mendonça pediu o arquivamento sumário da ação e solicitou apuração de possíveis crimes atribuídos a Moraes, como abuso de autoridade e denunciação caluniosa. O ministro também questionou relatórios da Polícia Federal usados contra ele, afirmando que não teriam valor probatório suficiente.
A crise no STF também teve reflexos políticos. No 7 de Setembro, em ato realizado na Avenida Paulista, apoiadores da direita e do bolsonarismo fizeram críticas a Alexandre de Moraes e manifestações de apoio a André Mendonça. O episódio mostrou como a disputa interna do tribunal rapidamente passou a alimentar o debate público em meio ao ambiente eleitoral de 2026.
Paralelamente, a Primeira Turma do STF manteve, por unanimidade, a condenação de Eduardo Bolsonaro por coação no curso do processo relacionado à trama golpista. O julgamento, relatado por Alexandre de Moraes, rejeitou recursos apresentados pela defesa e manteve pena de 4 anos e 2 meses em regime semiaberto, segundo o UOL. O caso adicionou mais pressão política ao ambiente já tensionado entre Supremo, Congresso, governo e oposição.
Os últimos acontecimentos colocam o Supremo diante de uma questão institucional sensível: como preservar a autoridade da Corte, garantir transparência em casos de interesse público e, ao mesmo tempo, evitar que divergências internas sejam vistas como disputas pessoais ou políticas. O episódio envolvendo Moraes, Mendonça e o caso Master deixou expostas fissuras dentro do tribunal e reacendeu discussões sobre regras de conduta, procedimentos disciplinares e limites de atuação dos ministros.
Fachin tem buscado atuar como árbitro da crise. Ao assumir o inquérito das fake news e centralizar decisões relacionadas a eventuais apurações de ministros, o presidente do STF sinalizou uma tentativa de reorganizar o comando institucional da Corte. Ainda assim, o pedido de vista de Flávio Dino adiou uma definição sobre os procedimentos envolvendo Moraes e Mendonça, mantendo o tribunal sob forte atenção pública.
O próximo capítulo dependerá da retomada do julgamento e da forma como o STF decidirá tratar os relatórios, pedidos de investigação e questionamentos apresentados. Enquanto isso, a crise segue produzindo efeitos dentro e fora do Judiciário, em um momento em que a Corte já ocupa papel central na vida política brasileira.
Mais do que uma disputa entre ministros, os acontecimentos recentes revelam um desafio maior para o Supremo: demonstrar capacidade de resolver seus conflitos internos com clareza, segurança jurídica e respeito ao devido processo. A resposta institucional a essa crise poderá influenciar não apenas a imagem da Corte, mas também a confiança pública no funcionamento das instituições brasileiras.








