Malafaia, Marçal e a disputa pelo coração dos evangélicos

Embate entre as lideranças acirra os ânimos e causa fraturas na comunidade cristã, gerando dúvidas sobre o futuro político e resultado nas urnas

O cenário político no Brasil ganha novos contornos, especialmente quando envolve a participação de lideranças religiosas, que têm influência decisiva sobre seus fiéis. Recentemente, o apoio de parte dos evangélicos ao candidato à prefeitura de São Paulo, Pablo Marçal, tornou-se um divisor de águas, evidenciando uma clara divisão entre os conservadores cristãos.

Pablo Marçal, empresário e ex-coach, tem tentado consolidar sua candidatura na maior cidade do país. No entanto, seu nome causa polêmica no meio evangélico, principalmente entre aqueles que tradicionalmente apoiam o bolsonarismo e são orientados por líderes religiosos influentes. Um dos maiores opositores de Marçal é o pastor Silas Malafaia, um dos nomes mais respeitados e influentes entre os evangélicos brasileiros. Malafaia, líder da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, não esconde sua aversão ao candidato e não poupa críticas. “Ele é uma farsa, um aproveitador”, afirmou o pastor em recente vídeo divulgado nas redes sociais.

A crítica de Malafaia: 

Um ataque direto

O pastor Silas Malafaia é conhecido por suas posições firmes e, dessa vez, seu alvo principal tem sido Pablo Marçal. Para Malafaia, Marçal utiliza a fé cristã de maneira deturpada, com o único objetivo de alcançar vantagens eleitorais. O estopim da controvérsia entre ambos ocorreu durante o ato de 7 de Setembro, realizado na Avenida Paulista, em São Paulo. Marçal chegou atrasado ao evento e, segundo Malafaia, esse atraso foi intencional, sugerindo que o candidato tinha medo de se associar publicamente a figuras como Jair Bolsonaro, ex-presidente, ou ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes.

Malafaia ainda questiona o comprometimento religioso de Marçal, apontando que, apesar de se autointitular cristão, o ex-coach não está ligado a nenhuma igreja específica. Em vídeos publicados nas redes sociais, Malafaia tem apelado diretamente aos fiéis. “Esse cara não é digno dos votos da direita, dos evangélicos, nem do povo de São Paulo porque mente, deturpa, engana para tirar proveito político”.

A estratégia de Malafaia é clara: afastar os eleitores evangélicos e conservadores de Marçal, ao mesmo tempo em que evita declarar apoio ao atual prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), aliado de Bolsonaro. Mesmo assim, a postura de Malafaia tem gerado questionamentos dentro do próprio segmento evangélico, com alguns líderes defendendo Marçal como uma alternativa válida.

O contra-Ataque: Padre

Léo Assis defende Marçal

Enquanto Silas Malafaia se posiciona como um ferrenho opositor, o padre Léo Assis, outra figura religiosa de grande destaque, emerge como um dos principais defensores de Pablo Marçal. O sacerdote chegou a enviar um recado direto a Malafaia. “Não me faça pegar nojo do senhor. Você está com uma perseguição desmedida contra o Marçal. Você, Malafaia, está se queimando no meio cristão com estes ataques. Marçal é o candidato em São Paulo que melhor representa nossos anseios. Você está perdendo credibilidade. Se contenha, pastor”, afirmou Léo Assis, em um vídeo também compartilhado nas redes sociais.

Para o padre, Marçal representa a renovação que parte do eleitorado evangélico deseja ver na política. Ele destaca que o candidato tem uma visão diferenciada, moderna e coerente com os princípios cristãos, e acusa Malafaia de estar agindo por interesses pessoais, em vez de se preocupar com o bem-estar do povo evangélico. O apoio de Léo Assis a Marçal não é isolado e reflete um crescente movimento de fiéis que veem no ex-coach uma alternativa ao tradicionalismo de líderes religiosos mais alinhados ao bolsonarismo.

A disputa pelo 

voto evangélico

A importância do voto evangélico para a definição das eleições em São Paulo é inegável. O grupo, que representa uma fatia significativa da população, tornou-se um dos principais alvos dos candidatos, que buscam angariar o apoio desse eleitorado para garantir vaga no segundo turno. Tanto Marçal quanto Nunes têm investido pesado em agendas religiosas, participando de eventos e encontros com lideranças cristãs para fortalecer suas bases.

Marçal responde: 

Um desafio a Malafaia

Por sua vez, Pablo Marçal não deixou as críticas de Malafaia sem resposta. Durante um encontro com dirigentes do Sindicato dos Taxistas Autônomos de São Paulo, o candidato fez uma comparação bíblica, insinuando que Malafaia seria como Eliabe, irmão de Davi, que tentou desmoralizá-lo. “Malafaia falou que eu tenho medo de Alexandre de Moraes. Só tem uma pessoa que eu tenho medo, que é o Deus vivo”, afirmou Marçal, referindo-se ao ministro do STF. O candidato ainda desafiou o pastor para um debate online, acusando-o de ser “financiado” pelo prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes (PSD), aliado do presidente Lula (PT).

Marçal ainda rebateu as acusações de que estaria tentando manipular os fiéis para obter votos. Segundo ele, os evangélicos são “conscientes” e votarão “por princípios” nas próximas eleições. “Os evangélicos não são gado”, disse o candidato, em resposta às críticas que têm recebido. Para ele, a postura de Malafaia é um reflexo de um medo da mudança, e o pastor estaria tentando preservar seus próprios interesses em detrimento da renovação que parte dos evangélicos busca.

Futuro

A disputa entre Marçal e Malafaia é um reflexo claro de um embate maior no meio cristão: de um lado, lideranças que defendem uma postura mais tradicional e alinhada aos ideais de Jair Bolsonaro e, de outro, aqueles que veem em Marçal uma alternativa para uma política mais moderna, sem perder os valores cristãos. A presença de líderes como o padre Léo Assis, em defesa de Marçal, reforça a complexidade desse cenário, onde as linhas divisórias entre política e religião se tornam cada vez mais tênues.

Com a eleição se aproximando, a disputa pelo voto evangélico promete ser um dos fatores decisivos para o resultado nas urnas. Enquanto Silas Malafaia se prepara para intensificar seus ataques a Pablo Marçal, o candidato segue buscando consolidar sua base de apoio entre os fiéis, apostando na mensagem de renovação e de uma política pautada por princípios cristãos. Resta saber como essa divisão dentro do eleitorado evangélico influenciará o futuro da política paulistana e do próprio movimento conservador no Brasil.