Desistências de Moro e Doria polarizam a corrida presidencial e tornam o voto dos evangélicos ainda mais decisivos no grande pleito de outubro
Um novo e contrastante cenário se forma na corrida presidencial de 2022 com as desistências do ex-ministro da Defesa, Sérgio Moro (União Brasil), e do ex-governador do estado de São Paulo, João Dória (PSDB). Sergio Moro, que alcançou 15% nas pesquisas quando se lançou, teve sua pretensão vetada pelo partido. Já Doria abriu mão da disputa à presidência após ter seu caminho bloqueado pela direção tucana, que ameaçava cortar as verbas para seu escritório político.
Apesar de a terceira via tentar emplacar um candidato para a disputa nenhum pretendente tem agradado ao gosto popular. Agora o nome da vez da chamada terceira via é Simone Nassar Tebet (MDB) – ocupante do cargo de senadora da república no estado do Mato Grosso do Sul. Nome pouco conhecido dentre a maioria dos brasileiros, ela tem também o apoio do partido Cidadania.
Outro pré-candidato é o conhecido Ciro Gomes (PDT) – que se mantém firme para a disputa da corrida presidencial. Mas, a grande disputa está mesmo marcada por dois nomes: o do presidente cristão e defensor da família, Jair Messias Bolsonaro, e do ex-presidente Lula. De acordo com as últimas pesquisas realizadas pelos institutos Ipespe e Datafolha, Lula está na frente, seguido de Bolsonaro e Ciro Gomes. Segundo pesquisa Ipespe divulgada em maio de 2022, Lula tem 45%, Bolsonaro 34% e Ciro 8%. Este levantamento ouviu por telefone mil eleitores e a margem de erro é de 3.2 pontos percentuais para mais ou para menos.
Já pelos números do Instituto Datafolha divulgados recentemente, o ex-presidente tem uma margem bem maior na disputa. Lula, que faz 77 anos em outubro, estaria com 48% contra 27% de Jair Messias Bolsonaro. A pesquisa ouviu 2.556 pessoas em 181 cidades brasileiras e a margem de erro é de 2 pontos para mais ou para menos.
Dentre este cenário, o “bolsonarismo” segue ocupando o espaço da centro-direita e da direita. Recentemente, passou a dividir o palco nacional com o PT – que permanece com ambição hegemônica na esquerda. Luiz Henrique Mandetta, ex-ministro da Saúde que teve atuação destacada na pandemia, foi abatido pelo bolsonarismo e também pelo União, que deseja circunscrevê-lo ao Mato Grosso do Sul. O apresentador Luciano Hulk ensaiou se candidatar, mas optou pela carreira na TV.
O PSD de Gilberto Kassab tentou emplacar o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, que achou mais seguro investir na atual cadeira abrigado pelo Centrão e em uma aliança com o PT. Kassab tentou emplacar ainda o ex-governador gaúcho Eduardo Leite, que preferiu ficar no PSDB.
Mediante à polarização entre Lula e Bolsonaro, o atual presidente segue com uma legião de fiéis escudeiros. Foi assim recentemente quando esteve em São José dos Campos, ao lado do candidato ao Governo do Estado, Tarcísio de Freitas, para oficialização da nova concessão da rodovia Presidente Dutra. Com forte ligação evangélica, Bolsonaro segue rejeitando conceitos que a esquerda tenta implantar como aborto, legalização ou descriminalização drogas e ideologia de gênero. Isso, de uma forma ou de outra, o deixa ainda mais próximo dos cristãos, que preferem um candidato que defenda os conceitos familiares ao candidato que tenta implantar uma nova filosofia na sociedade, esquivando-se dos valores morais, éticos, familiares e religiosos.
Faltando meses para o pleito pode-se dizer que salvo pelo imprevisível, a polarização entre Lula e Bolsonaro afigura-se irreversível. A terceira via está enterrada. Caso a intenção de voto atual não se altere muito, será muito difícil ocorrer uma mudança no cenário. Somente um escândalo de proporção épica, com dano irreparável para um lado ou outro, para impulsionar alguma arrancada ou declínio. Certamente, abusos irão ocorrer. Daqui para frente as pesquisas vão oscilar, como já estão oscilando. Lula fala da invasão da Ucrânia e da legalização do aborto, perdendo pontos com os cristãos. Quanto mais acirrada for a disputa – e há projeções de que chegue em outubro na base do voto a voto – mais denúncias, brigas e ofensas vão para a agenda de campanha.
Lula vai bater na economia e no estilo autoritário do presidente. Vai relembrar algumas de suas frases infelizes e se isentar – como é de seu costume – de qualquer responsabilidade pela brutal recessão que atingiu o Brasil a partir de 2015, no governo de sua apadrinhada. Vai usar, também, a pandemia.
Infelizmente, o risco de conflitos e violência entre defensores dos dois grupos podem ocorrer, assim como intermináveis suspeitas de manipulação das urnas e a credibilidade do sistema eleitoral. Dentre as oposições, há uma certeza: com o Brasil dividido quem mais sofre são os brasileiros.